O documentário sobre os Novos Baianos, "Filhos de João - Admirável Mundo Novo Baiano", escancara o quão órfãos estamos de uma produção musical de qualidade. Órfãos também de fãs que idolatrem conteúdo, música bem pensada, trabalhada, refinada, feita com talento e genialidade.
O filme conta a história linda e, na maioria dos episódios, engraçadíssima do grupo que se formou aos poucos, que teve o imprescindível apoio de João Gilberto e, agora, a narração de Tom Zé. Ele, inclusive, enriquece ainda mais história com suas definições exageradas - porém, sinceras - de que os novos baianos foram "oráculos", que cantavam o que estava na "gravidez cósmica da juventude" da época.

Oráculos ou simplesmente músicos bons e sinceros, aqueles doidos baianos sem pretensão alguma marcaram uma época com canções poéticas, letras inteligentes, ritmo criativo, produção rica. Eram comprometidos com a ideologia do que criavam e conquistaram o Brasil nos anos 70.
A evolução do grupo arrastava um público cada vez maior naquela década. Como um dos entrevistados - não lembro qual - falou no filme, ao redor do trio elétrico estavam aquelas pessoas que sabiam o que era música boa.
E eram centenas, crianças e adultos, pulando ao som apenas dos instrumentos. Um carnaval puro. Depois, os doidos baianos conseguiram também contar com a alta tecnologia de um microfone que não dava microfonia. Aí, a festa aumentou, o trio elétrico recebeu muitas luzes e todo mundo cantava junto "Besta é tu".
Eles não seguiram nenhum padrão, fizeram o que gostavam, o que amavam. Compor, tocar, viver a música. Não se comportavam de maneira planejada para conquistar fama. E foi essa sinceridade que os fez conquistar até os alemães, que vieram filmar um documentário com o grupo na época em que viviam no sítio. (As imagens estão em "Filhos de João". A maioria delas, dos magricelos jogando futebol.
Cada integrante fez o que teve vontade. No momento em que as próprias regras da sociedade sem regras que criaram incomodou alguns, eles pararam.
E, assim, fica a vontade de quero-ver-e-ouvir-muito-mais desses caras quando o "Filhos de João" termina. E também uma vontade de que a minúscula sala de cinema da Casa de Cultura Mário Quintana tivesse muito mais do que as 40 poltronas e estivesse lotada no domingo à tarde.
Mas não.
O Brasil segue a cantar meteoros de paixão por um cantor que pergunta para a assessora de imprensa tudo o que pode e não pode fazer e que se mostra sempre com aquela cara de quem detesta o que faz. Tenho mais pena dele que das fãs.
É bom ouvir as risadas de admiração do público durante os devaneios sinceros do Tom Zé. E ver e sentir orgulho de uma gurizada que gastava tudo que ganhava em coisas das quais eles curtiam. Na diversão com que tocavam seus instrumentos, por puro prazer, ou pra mudar o mundo, mas do jeito deles. E o melhor é perceber que tudo se repete, em intensidades diferentes, que as questões que juntaram esse grupo de pessoas, também acabou os separando. E a lição que se aprende é que nem tudo dura pra sempre, por mais que as coisas possam parecer eternas, mas ficam as lembranças, os aprendizados e principalmente nesse caso, a música! Lindos Novos Baianos.
ReplyDelete