Monday, August 1, 2011

Besta é tu.

Música boa e sincera. Estamos carentes disso no Brasil. Digo, de música que seja nova, boa e sincera. Músicas antigas temos muitas que são boas e sinceras - e essas, na verdade, nem podemos classificar como velhas. Elas não ficam velhas.

O documentário sobre os Novos Baianos, "Filhos de João - Admirável Mundo Novo Baiano", escancara o quão órfãos estamos de uma produção musical de qualidade. Órfãos também de fãs que idolatrem conteúdo, música bem pensada, trabalhada, refinada, feita com talento e genialidade.

O filme conta a história linda e, na maioria dos episódios, engraçadíssima do grupo que se formou aos poucos, que teve o imprescindível apoio de João Gilberto e, agora, a narração de Tom Zé. Ele, inclusive, enriquece ainda mais história com suas definições exageradas - porém, sinceras - de que os novos baianos foram "oráculos", que cantavam o que estava na "gravidez cósmica da juventude" da época.


Oráculos ou simplesmente músicos bons e sinceros, aqueles doidos baianos sem pretensão alguma marcaram uma época com canções poéticas, letras inteligentes, ritmo criativo, produção rica. Eram comprometidos com a ideologia do que criavam e conquistaram o Brasil nos anos 70.

A evolução do grupo arrastava um público cada vez maior naquela década. Como um dos entrevistados - não lembro qual - falou no filme, ao redor do trio elétrico estavam aquelas pessoas que sabiam o que era música boa.

E eram centenas, crianças e adultos, pulando ao som apenas dos instrumentos. Um carnaval puro. Depois, os doidos baianos conseguiram também contar com a alta tecnologia de um microfone que não dava microfonia. Aí, a festa aumentou, o trio elétrico recebeu muitas luzes e todo mundo cantava junto "Besta é tu".

Eles não seguiram nenhum padrão, fizeram o que gostavam, o que amavam. Compor, tocar, viver a música. Não se comportavam de maneira planejada para conquistar fama. E foi essa sinceridade que os fez conquistar até os alemães, que vieram filmar um documentário com o grupo na época em que viviam no sítio. (As imagens estão em "Filhos de João". A maioria delas, dos magricelos jogando futebol.

Cada integrante fez o que teve vontade. No momento em que as próprias regras da sociedade sem regras que criaram incomodou alguns, eles pararam.

E, assim, fica a vontade de quero-ver-e-ouvir-muito-mais desses caras quando o "Filhos de João" termina. E também uma vontade de que a minúscula sala de cinema da Casa de Cultura Mário Quintana tivesse muito mais do que as 40 poltronas e estivesse lotada no domingo à tarde.

Mas não.
O Brasil segue a cantar meteoros de paixão por um cantor que pergunta para a assessora de imprensa tudo o que pode e não pode fazer e que se mostra sempre com aquela cara de quem detesta o que faz. Tenho mais pena dele que das fãs.

Tuesday, June 21, 2011

Paris e Woody Allen, uma belíssima combinação.

“Meia-noite em Paris” é leve e denso. Leve porque é Paris, porque é Woody Allen. Denso, por causa da história, ou melhor, das tantas histórias que conta em uma só e das diferentes mensagens que passa.

Meia-noite em Paris já encanta no início, com ótimos enquadramentos da romântica capital.

Teve gente que saiu do cinema no meio do filme. Teve gente que odiou o filme. Eu acho que não há como não gostar de alguma obra de Woody Allen. Há, apenas, como não fazer muito esforço para compreender o que ele quer dizer.

Em “Meia-noite…”, ele fala de algo simples de forma cômica e, até, um tanto bizarra: a nostalgia. Fala também de relacionamento falido, de imaginação, de mudança. Critica os colegas roteiristas hollywoodianos, critica os americanos, critica o ser humano. Tudo com muita sutileza.

Não sou uma grande conhecedora da obra de Allen. Mas me parece que, até aqui, nada soa muito diferente de seus outros filmes.

Porém, quando o relógio bate meia-noite na capital francesa, a trama vai além dessas críticas, das frustações de traição, medo do futuro e acomodação. Como? Tem que assistir – e viajar com o enredo, captar os detalhes, explorar as conclusões sobre o porquê de cada cena.

Não espere um final surpreendente. Não espere uma explicação racional pelo que acontece no filme. Woody Allen nos convida a imaginar. Apresenta-nos escritores, pintores, gênios de todos os tempos, com uma leitura despretensiosa e inteligente de cada personalidade. É incrível.

Dá para conhecer mais de arte e literatura com “Meia-noite…”. Dá para pensar mais sobre a insatisfação humana, presente em qualquer época. Dá para rir muito com Adrien Brody no papel do pirado do Salvador Dalí compondo uma pintura. Dá para se deliciar com mais encantos de Woody Allen.

Outras duas coisas que adorei na obra: Rachel McAdams lembra a Scarlet, a queridinha do diretor. E o protagonista, Owen Wilson, se parece muito com o próprio Woody Allen!

Monday, May 2, 2011

O casamento, o Bin Laden e o patriotismo.

Mais de 2 bilhões de pessoas com olhos atentos, emocionados, felizes. A grande maioria acenava bandeiras do Reino Unido, de todos os tipos e tamanhos.

Jovens pintaram os rostos de azul, branco e vermelho e foram para as ruas, muito empolgados. Crianças se vestiam com as mesmas cores, em roupas costuradas especialmente para a ocasião. Eram guiadas pelos pais rumo ao grande momento. Senhoras também vestiram as bandeiras e foram para a festa.

Turistas se juntaram à comemoração nacional, que chamou a atenção do mundo inteiro por bastante tempo - muito antes do evento e, no dia D, quase que por 24 horas.

Isso tudo foi no casamento do Príncipe William e da, agora, duquesa Catherine. Acompanhei pela televisão, internet e fotos de amigos. A principal sensação que tive de tudo foi um sentimento de patriotismo muito forte, que uniu todas aquelas pessoas.

No outro lado do oceano Atlântico...
os EUA acordaram às 3h da madrugada desta segunda-feira, também para festejar.

Com a mesma percepção de um patriotismo fulgurante, vi reportagens sobre as milhares de pessoas reunidas nas ruas aos gritos de alegria, flamejando o azul, vermelho e branco da bandeira norte-americana.

Dois momentos tãos distintos reavivaram sentimentos tão parecidos.

Sem entrar na questão das vítimas do ataque ao World Trade Center, dos pais, irmãos, amigos que sentiram um sabor de justiça e aliviaram um pouco da dor da perda, é triste também ver pessoas com sentimentos nobres - felicidade, patriotismo, união nacional - aflorados em razão da morte de outra pessoa.

O assassinado era Bin Laden, ok, um terrorista confesso e, obviamente, maluco da cabeça. É imperdoável o que ele fez - e até o que nem tenha feito, mas tenha conspirado para tal e incentivado. (Teorias da conspiração ficam à parte neste texto. Para quem assistiu - e gostou - do primeiro documentário da série Zeitgeist, essa "guerra contra o terror" não faz muito sentido com o que se divulga oficialmente. Mas não vou entrar nessa bagunça toda.)

No caso da execução de Bin Laden, ao menos, a dor de pessoas inocentes, alheias à uma estrutura tão maior e desconhecida, fica um pouco mais amena.

Mesmo assim, acho triste para o mundo o fato de uma nação ter motivos para comemorar a morte de um ser - não tão humano, mas, de qualquer forma, vivo.

Dia desses, no ônibus, esse assunto já me veio à cabeça. Um homem comentava, com alegria, os tiros à queima roupa de um policial à paisana contra um assaltante. O ladrão e seu comparsa roubaram o carro de uma médica enquanto ela saía do trabalho, junto com a mãe idosa.

Mas o motorista de um ônibus que estava à frente viu tudo e parou. O ladrão não teve como seguir, ficou buzinando no "engarrafamento". O militar, que estava indo para casa, viu tudo. Chegou ao lado do carro e disparou no mínimo, oito tiros. Matou o assaltante e deixou o outro ferido, que fugiu.

Aí, em outro ônibus, uma hora depois do acontecido, eu ouvi toda essa história. O homem que a contou, para um amigo ao lado dele, encerrou falando alto e sorrindo:

- Um a menos!

O fato é que...
esse mata mata não resolve nada. Pode aliviar a dor de alguns, mas pode trazer mais dor para outros. Os próprios EUA reconhecem agora um médico egípcio como o número 1 da Al-Qaeda.

O porta-voz do Talibã no Paquistão falou que o presidente e o exército do país dele serão os primeiros alvos do grupo, e que o segundo alvo será "a América".

Americanos, paquistaneses, afegãos, iraquianos, iranianos, congoleses, ugandenses, brasileiros... todos sofrem com essa cultura de matar para vingar, matar para tentar resolver alguma coisa - mesmo admitindo que não será a solução.

A segurança está extremamente reforçada em Nova Iorque, com grande atenção ao Marco Zero - ondem eram as torres gêmeas. Será que os americanos realmente estão mais seguros, como declarou Obama?

A manchete do G1 "Obama diz que mundo está melhor e mais seguro após morte de Bin Laden" pede reflexão. Alguém realmente acha que matar o poderoso chefão de um dos grupos mais cruéis do mundo traz mais segurança para algum lugar? Só em Marte - talvez por isso os EUA invistam tanto em pesquisas por lá.

Por fim...
o assunto rende muitas argumentações. O que me fez escrever foi, simplesmente, a aberrante diferença de situações que inflamaram corações patriotas em dois continentes, num intervalo de dois dias. Foi abrir o jornal de hoje e ter vontade de expressar isso.

Claro que não há como julgar de fora o sentimento de unidade nacional de cada cidadão em um outro país. É questão cultural, social - sim, eu sei. E se eu estivesse em Londres, iria curtir o agito do casamento real - sem bandeiras e provavelmente em frente à tv. Mas também estaria feliz.

Entretanto, fico com o patriotismo brasileiro - pelo esporte, pela seleção brasileira de futebol, de vôlei, de basquete, de ginástica olímpica, natação, atletismo... A gente agita as bandeiras, pinta o rosto, mas por puro esporte.

Às vezes, por bundas e seios também, o que não faz meu estilo. Mas é uma energia muito mais vibrante e positiva do que festejar a morte de um inimigo perigoso que, de certa forma, ainda continua bastante vivo.

Viva o Brasil que ainda precisa melhorar muito, mas cujo número 1 é uma cerveja e cujo povo, felizmente, ainda é patriota por coisas saudáveis.

Wednesday, April 20, 2011

Bola fora

Era para ser uma terça-feira normal - a kombi me deixaria na esquina da José de Alencar e eu pegaria o T5 para o Bom Fim, o que levaria, no máximo, 30 minutos.

Mas, nesta terça-feira, Dia do Índio, o programa foi tal e qual: o mesmo roteiro levou 1 hora. Por quê? Jogo. De futebol. Do Inter.

Penso: o que será de Porto Alegre na Copa de 2014? O que será da Copa de 2014 em Porto Alegre?

Hoje, pego um táxi na Cidade Baixa, para ir para a mesma Cidade Baixa (andar quatro quadras de táxi está valendo a pena). Uma tranqueira na Lima&Silva. 15 minutos que, em trânsito decente, virariam 5.

- Esse pessoal tá na Disney - reclamo dos carros que não andam.
- É o caminhão do lixo que tá trancando - me corta o taxista, apontando mais à frente.

Ah, bom, esses caras merecem nossa calma. Admiro os lixeiros, sério. Os lixeiros brasileiros. (Sobre isso, veja isto.)

- Ontem estava um caos essa cidade. Hoje está também - ponderou o taxista, um senhor de uns 50 anos, calmo e simpático.
- Nossa... e o que será na Copa, então?! - desde o dia anterior, eu queria ouvir uma fonte segura sobre o assunto. Nada melhor que um taxista.
- Espero que não venha pra cá (a Copa)!
- Mas já vem!!! - eu dei a notícia, já velha.
- Mas espero que não venha mais - retrucou ele, sorrindo. - Esta semana, levei uma bióloga, que estava acompanhando um pessoal da FIFA, CBF e os organizadores da Copa. Foram fazer uma vistoria no Beira Rio. Tu sabe que o Beira Rio é abaixo do nível do rio, né? Pois é, os drenos da base não estão funcionando direito, a bióloga disse que a sustentação do estádio está podre! O que o clube disse? Que não tem dinheiro para reformar.

A comitiva também andou pela cidade e, segundo o taxista, concluiu: "Porto Alegre está sucateada. Não tem estrutura para receber a Copa."

- Sério? - me surpreendi. Quero uma entrevista com essa bióloga.
- Sim - confirmou o taxita. - Mas isso só eles não sabiam, nós já sabíamos!
- Hahahaha! - a risada foi conjunta.

Digam-me: o que será quando a Copa estiver por aqui? Ah, claro, será feriado. Afinal, é futebol, né! É Copa!

Imagina, pra que abrir os bancos? No serviço público, o ponto é facultativo* quando a nossa seleção joga em Copa. Imagina quando a Copa for aqui!

*Arram, senta lá, Cláudia.

Saturday, April 16, 2011

Cedo da manhã de sábado em Porto Alegre...

7h, atravessando a Osvaldo Aranha para pegar o T5
Um cara bêbado, provavelmente saindo do Ociente, me aborda:

- Brãlãlálã?.
- O quê? - perguntei um pouco assustada, mas já percebendo que seria mais fácil eu assaltá-lo que o contrário.
- Tá indo embora?
Eu ri, óbvio. - Não, estou indo trabalhar!
- Capaz! Trabalhar essa hora?! - ele, indignado, virando o corpo em minha direção conforme eu passava por ele, no canteiro do corredor de ônibus.
- Hahaha, sim. E tu, saindo da balada, pelo jeito.
- Sim, to indo pra casa - e se foi em um ônibus em direção ao Centro.

Aroma etílico no T5
No ônibus, três adolescentes voltando de outra balada. As gurias de pés descalços e imundos, uma dormindo no ombro da outra, esta outra cuidando a parada onde descer.

Sentei ao lado de um rapaz. Ele tinha a fisionomia de um portador de necessidades especiais (eu adoro essas pessoas, já cuidei de duas), mas logo percebi que era embriaguez.

Preciso descrever o cheiro no ônibus?

Foi divertido...

Já no 195-TV...
Não parecia ter ninguém saindo da balada. Ao fundo, uns possíveis "meliantes" que talvez tenham passado a noite no Centro em busca de gente para assaltar. Também pode ser preconceito meu - mas foi evitando ele que eu fui assaltada na Osvaldo dia desses.

Um gremista e outras duas pessoas dormiam, uma menina do meu lado vestia um casaco que exalava aquele cheiro de armário com naftalina - esfriou um pouco hoje.

Em uma das paradas subindo o morro em direção à RBS, entra um rapaz branco de olhos claros e cabelo loiro ralo. Chinelo de dedo, pés sujos, calção de surfista e camiseta. Chegou bem perto do cobrador e pediu "carona". Eu estava a dois bancos da roleta.

O cobrador pediu para que ele olhasse para a câmera atrás dele. O rapaz desceu correndo na parada seguinte. O cobrador garantiu: "Era assalto certo". Olhou o relógio: "Cedo, ein!? Sete e cinquenta da manhã!"

Antes mesmo que eu pudesse perguntá-lo o porquê de tanta certeza, ele já ligou para o colega Francisco:

- Não pega um alemão que vai estar na parada aqui (não lembro especificamente onde no morro), ele quase me assaltou, é assalto na certa.

Mas era a mulher do Francisco.

- Esse pessoal troca de celular como troca de roupa! Mas acho que ela vai avisar - disse o cobrador, enquanto já discava outro número. - Oh, parceiro, manda uma viatura aqui (na rua tal) que tem um alemão que tentou me assaltar. Por favor, rápido, que ele tá aqui!

Logo passamos pelo ônibus do Francisco. O motorista fez sinal de luz e buzinou. Parece que a esposa avisou o marido, estava tudo certo com eles.

Então, consegui conversar com o cobrador. Ele disse ter certeza ser assalto porque o menino chegou olhando direto para a gaveta com o dinheiro, se assustou com a câmera, saiu um pouco contrariado e até sem jeito.

O cobrador também tem experiência no assunto, este seria o quarto assalto dele. "No último, o cara colocou um 38 aqui do lado que parecia que o cano ia entrar no pulmão". Eram duas e vinte da tarde, subindo o morro.

- Ele ia assaltar todos no ônibus - levantei a questão, com os olhos arregalados, completamente insegura.
- Não, ia só me assaltar e levar as bolsas de quem estava mais perto aqui - apontou para os primeiros bancos depois da roleta. Outra bolsa minha, não! Por favor!

Os demais passageiros, o assaltante teria que acordar, os sonos eram profundos. As duas meninas acordadas sentadas próximas a mim assistiam à conversa como se fosse sobre uma receita de bolo. Nem se impressionaram com o acontecido.

Ao descer, a única coisa que pude dizer ao cobrador foi "tchau, boa sorte aí".

Afff...
Não interessa o local, não interessa o horário. É básico que possamos andar de ônibus com tranquilidade, se a pé não é mais seguro (não tive coragem de caminhar até a Salgado Filho, às 7h. Por isso, peguei os dois ônibus).

Cadê o policiamento, cadê as tão faladas "políticas públicas", cujo nome é bonito, mas cujas atividades e resultados são pouco sentidos? Cadê a ordem social? Que absurdo! Não dá nem mais para ir trabalhar em paz! Bêbados na saída das baladas, nenhum problema. Agora, assalto em pleno sábado de manhã cedo, no ônibus?

Fora o medo de esperar o T5 na Osvaldo, cuidando para ver se, a qualquer momento, saía um maluco da Redenção querendo outra bolsa minha.

A única coisa que me resta dizer para mim mesma é que "nossa impotência é grande".