Mais de 2 bilhões de pessoas com olhos atentos, emocionados, felizes. A grande maioria acenava bandeiras do Reino Unido, de todos os tipos e tamanhos.
Jovens pintaram os rostos de azul, branco e vermelho e foram para as ruas, muito empolgados. Crianças se vestiam com as mesmas cores, em roupas costuradas especialmente para a ocasião. Eram guiadas pelos pais rumo ao grande momento. Senhoras também vestiram as bandeiras e foram para a festa.
Turistas se juntaram à comemoração nacional, que chamou a atenção do mundo inteiro por bastante tempo - muito antes do evento e, no dia D, quase que por 24 horas.
Isso tudo foi no casamento do Príncipe William e da, agora, duquesa Catherine. Acompanhei pela televisão, internet e fotos de amigos. A principal sensação que tive de tudo foi um sentimento de patriotismo muito forte, que uniu todas aquelas pessoas.
No outro lado do oceano Atlântico...
os EUA acordaram às 3h da madrugada desta segunda-feira, também para festejar.
Com a mesma percepção de um patriotismo fulgurante, vi reportagens sobre as milhares de pessoas reunidas nas ruas aos gritos de alegria, flamejando o azul, vermelho e branco da bandeira norte-americana.
Dois momentos tãos distintos reavivaram sentimentos tão parecidos.
Sem entrar na questão das vítimas do ataque ao World Trade Center, dos pais, irmãos, amigos que sentiram um sabor de justiça e aliviaram um pouco da dor da perda, é triste também ver pessoas com sentimentos nobres - felicidade, patriotismo, união nacional - aflorados em razão da morte de outra pessoa.
O assassinado era Bin Laden, ok, um terrorista confesso e, obviamente, maluco da cabeça. É imperdoável o que ele fez - e até o que nem tenha feito, mas tenha conspirado para tal e incentivado. (Teorias da conspiração ficam à parte neste texto. Para quem assistiu - e gostou - do primeiro documentário da série Zeitgeist, essa "guerra contra o terror" não faz muito sentido com o que se divulga oficialmente. Mas não vou entrar nessa bagunça toda.)
No caso da execução de Bin Laden, ao menos, a dor de pessoas inocentes, alheias à uma estrutura tão maior e desconhecida, fica um pouco mais amena.
Mesmo assim, acho triste para o mundo o fato de uma nação ter motivos para comemorar a morte de um ser - não tão humano, mas, de qualquer forma, vivo.
Dia desses, no ônibus, esse assunto já me veio à cabeça. Um homem comentava, com alegria, os tiros à queima roupa de um policial à paisana contra um assaltante. O ladrão e seu comparsa roubaram o carro de uma médica enquanto ela saía do trabalho, junto com a mãe idosa.
Mas o motorista de um ônibus que estava à frente viu tudo e parou. O ladrão não teve como seguir, ficou buzinando no "engarrafamento". O militar, que estava indo para casa, viu tudo. Chegou ao lado do carro e disparou no mínimo, oito tiros. Matou o assaltante e deixou o outro ferido, que fugiu.
Aí, em outro ônibus, uma hora depois do acontecido, eu ouvi toda essa história. O homem que a contou, para um amigo ao lado dele, encerrou falando alto e sorrindo:
- Um a menos!
O fato é que...
esse mata mata não resolve nada. Pode aliviar a dor de alguns, mas pode trazer mais dor para outros. Os próprios EUA reconhecem agora um médico egípcio como o número 1 da Al-Qaeda.
O porta-voz do Talibã no Paquistão falou que o presidente e o exército do país dele serão os primeiros alvos do grupo, e que o segundo alvo será "a América".
Americanos, paquistaneses, afegãos, iraquianos, iranianos, congoleses, ugandenses, brasileiros... todos sofrem com essa cultura de matar para vingar, matar para tentar resolver alguma coisa - mesmo admitindo que não será a solução.
A segurança está extremamente reforçada em Nova Iorque, com grande atenção ao Marco Zero - ondem eram as torres gêmeas. Será que os americanos realmente estão mais seguros, como declarou Obama?
A manchete do G1 "Obama diz que mundo está melhor e mais seguro após morte de Bin Laden" pede reflexão. Alguém realmente acha que matar o poderoso chefão de um dos grupos mais cruéis do mundo traz mais segurança para algum lugar? Só em Marte - talvez por isso os EUA invistam tanto em pesquisas por lá.
Por fim...
o assunto rende muitas argumentações. O que me fez escrever foi, simplesmente, a aberrante diferença de situações que inflamaram corações patriotas em dois continentes, num intervalo de dois dias. Foi abrir o jornal de hoje e ter vontade de expressar isso.
Claro que não há como julgar de fora o sentimento de unidade nacional de cada cidadão em um outro país. É questão cultural, social - sim, eu sei. E se eu estivesse em Londres, iria curtir o agito do casamento real - sem bandeiras e provavelmente em frente à tv. Mas também estaria feliz.
Entretanto, fico com o patriotismo brasileiro - pelo esporte, pela seleção brasileira de futebol, de vôlei, de basquete, de ginástica olímpica, natação, atletismo... A gente agita as bandeiras, pinta o rosto, mas por puro esporte.
Às vezes, por bundas e seios também, o que não faz meu estilo. Mas é uma energia muito mais vibrante e positiva do que festejar a morte de um inimigo perigoso que, de certa forma, ainda continua bastante vivo.
Viva o Brasil que ainda precisa melhorar muito, mas cujo número 1 é uma cerveja e cujo povo, felizmente, ainda é patriota por coisas saudáveis.
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